Mary Del Priore, Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Pen Club
Dirce de Sá Freire, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Extraído da Revista Saúde em Foco, da Secretaria Municipal de Saúde/RJ
O tema obesidade está muito presente hoje. Mas no passado a obesidade estava longe de ser um problema. Obesidade já foi sinônimo de beleza e formosura.
Uma mulher descadeirada ou angulosa era considerada por médicos, no século XIX, como uma doente. Milênios de fome fizeram o homem valorizar o alimento, mas hoje, em boa parte do mundo, o problema transformou-se no seu contrário. Como conviver com a abundância? Como lidar com o excesso de comida?
A História da Alimentação tem seu inicio com uma História da Fome. Dante Alighieri, na Divina Comédia disse que a fome era uma das piores realidades que assolava a humanidade. Ele descreve a morte por fome como lenta e muito dolorosa, provocando enorme sofrimento imposto de forma extremamente vagarosa. Morrer de fome era tão terrível que o autor a pinta como um dos castigos impostos aos pecadores num dos círculos do inferno. Suas imagens sobre a fome nascem da experiência concreta. Dante havia visto a Europa ser varrida pela peste negra na Idade Média. A peste, metaforizada na figura do rato negro que matava e inoculava as pessoas com a peste bubônica, se transformou numa epidemia de fome fenomenal, uma vez que os roedores atacavam, além dos agricultores, as plantações. Essa fome varreu a Europa, deixando nas figuras esquálidas o retrato de uma doença que foi, na maior parte das vezes, associada à morte.
Até o final da Idade Média, a história da alimentação é, portanto, a história da fome. É uma história de gente que morria, na maior parte das vezes, com a boca enterrada no chão, comendo capim. Ervas alucinógenas, encontradas nos campos europeus, serviam, muitas vezes, para mitigar o horror da falta de alimentos. A história do corpo na Idade Média está totalmente relacionada com tais crises frumentárias e consagraram uma imagem do corpo esquálido, do corpo onde se podiam contar as costelas. Magreza era sinônimo de fome, doença e morte, como se pode constatar nos inúmeros quadros pintados na época.
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