quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A PREOCUPAÇÃO COM A BELEZA E A FALSA EXPECTATIVA DA FELICIDADE ETERNA - PEQUENO HISTÓRICO PARA A COMPRENSÃO DOS TRANSTORNOS ALIMENTARES NO SÉC XXI

Mary Del Priore,  Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Pen Club
Dirce De Sá Freire, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Extraído da Revista Saúde Em Foco, da Secretaria Municipal de Saúde/RJ


O artigo acima, que transcreveremos para o nosso blog em vários capítulos, deve ser lido por todos aqueles que desejam despertar, de como a História influencia hábitos alimentares, para gerar padrões de valores culturais  no inconsciente coletivo, servindo aos interesses da dominação.


"Todos sabemos que a relação com a alimentação e, consequentemente, com o corpo dela decorrente é uma construção cultural. Cada cultura, em diferentes momentos históricos construiu uma representação específica sobre a fome ou a saciedade; a gordura ou a magreza. Na idade média os corpos femininos eram muito representativos da dieta magra que consumiam e mais:  da crença do pecado da gula. Comer em demasia levava direto  às portas do inferno. Na idade Moderna, entre os séculos XVI e XVIII, a entrada do açúcar e da batata no cardápio europeu, vindos da América do Sul, modificou o padrão de beleza feminina. Os corpos ganharam em gordura e peso, símbolo do consumo de produtos importados. A primeira metade do século XIX, investiu na abundância alimentar prodigalizada pelas revoluções industriais, a ascensão da burguesia e o consumo modificado por tecnologias de refrigeração e acondicionamento dos alimentos: nasce a embalagem à vácuo, a carne refrigerada, as latas de grãos e legumes. Graças à navegação à vapor, alimentos podiam ser transportados de um lado a outro do mundo, introduzindo novos sabores às dietas originais. De novo, os padrões se modificaram ao final do século XIX, com o surgimento do esporte e a democratização de corridas de bicicleta, regatas e outras atividades ao ar livre. A presença de imigrantes europeus, consolidou a fundação de clubes esportivos, enquanto uma nova relação se estabelecia com a vida urbana. Considerada sufocante e doentia - a palavra neurastenia nasce no início do século dezenove para designar as doenças provocadas pela correria e a poluição - a cidade vai convidar a vida saudável, na busca de ar livre e atividade. Os corpos começam a afinar. Atualmente, caem bem as palavras do artista americano Marlon Brando: "entre mercadores da magreza ser gordo é revolucionário!", designando a obsessão pela magreza, num mundo de abundância alimentar, sobretudo nos países desenvolvidos.
Com o objetivo de melhor entender essas distinções buscamos na história as explicações para dar conta do contexto atual.








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