Mary Del Priore, Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Pen Club
Dirce De Sá Freire, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Extraído da Revista Saúde em Foco, da Secretaria Municipal de Saúde/RJ
Tratar, hoje, o Corpo não deve se restringir ao campo da medicina ou da biologia, mas, com certeza, precisa considerar o psíquico. Hoje já não encontramos mais bons profissionais de saúde que dispensam os aspectos psicológicos no tratamento dos transtornos alimentares.
Ao trazer o foco para o ato de comer encontramos a tríade fundante "pai-mãe-bebê", que muito explica sobre as instâncias alimentares sob as quais o sujeito se estrutura, e que pressupõe: "alimentar" o bebê "ser alimentado" pelo pai, ao mesmo tempo permitir que a mãe cumpra seu papel alimentador, sendo ela também "alimentada" em suas necessidades. Deparamo-nos, assim, com um Corpo que recebe alimento e que é alimento. O ato de alimentar e ser alimentado deve ser pensado para além da mera sobrevivência, mais especificamente como possibilidade de oferecer a elaboração dos registros que constituirão o "habitar-se", ou o apropriar-se do próprio corpo imerso na relação com o outro.
À luz das histórias e das estórias presentes no passado alimentar de nossos antepassados, que a transgeracionalidade se incumbe de revelar, constatamos que as dificuldades com o Corpo se fazem cada vez mais presente na clínica contemporânea em geral, e em particular na clínica psicanalítica, refletindo a imagem do mal-estar na atualidade. É o corpo falando quando o sujeito se vê impossibilitado de usar a linguagem, expressando uma dificuldade de simbolização, presente nos processos de adoecimento de uma sociedade marcada por uma epidemia de transtornos alimentares.
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